A verdade Nua e Crua

O apartamento era bagunçado. Aparentava ser habitado por homens solteiros com idade entre 18 e 23 anos. Era de manhã. Umas 08:00. À minha frente haviam três jovens, um na mesa, um no sofá e um sentado no chão. Do meu ponto de vista era possível ver todos eles. Em frente ao rosto do rapaz sentado a mesa havia uma arma, atrás da arma um negro grande com cabelo enrolado. Na cozinha era possível ver um quarto homem branco, ele fumava e procurava algo no armário. Na mesa eu podia ver hambúrgueres, tive discernimento suficiente para ter meu estomago embrulhado ao associar o horário de café da manhã com o cardápio prestes a ser ingerido. O negro apontava a arma para o rapaz enquanto dizia: – Com o que Marsellus Wallace se parece? – O rapaz, trêmulo como uma cadeira de massagens, só se atreveu a dizer: – O que? – O negro então voltou a perguntar: – Com o que Marsellus Wallace se parece filho da p%$#? – Novamente: – O quê?!. O negro então disse com vontade: – Diga “o quê” mais uma vez filho da p%$#, diga mais uma vez filho da p%$#! Eu desafio você! Diga!. E então se acalmou, e perguntou novamente: – Marsellus Wallace se parece com uma put@#$? – O rapaz ameaçou: – o qu… – e então interrompeu bruscamente a tempo , e disse com uma voz trêmula enquanto sua urina escorria por baixo da cadeira onde estava sentado: – Nã..ão… . Ao que o negro respondeu: – Então, por que você está tentando fod#$# ele?!.

Nesse instante pude perceber uma outra voz no apartamento. Uma voz que não combinava com o clima ali presente. A voz era fina e irritante, era possível perceber que a voz mascava chiclete. A voz então, quase ao mesmo tempo em que o negro falava outra sentença que não foi possível distinguir, disse: – Nooossa mãe, olha esse netbook rosa que lindo!!!”. Ao mesmo tempo em que minha cara de espanto chegou ao auge, a ficha caiu. Eu então retirei os óculos 3D do meu rosto, devolvendo-os sob a prateleira da TV LED 3D à venda na FNAC do Dom Pedro Shopping. A este ponto eu só queria saber quem havia entrado na minha cena favorita de Pulp Fiction. Mentalmente pedi desculpas a Samuel L. Jackson por arruinar sua cena e pelo canto dos olhos percebi uma nuvem Rosa do meu lado, também senti uma lambida no meu tornozelo. – aí sim, havíamos sido surpreendidos novamente. Desci a cabeça e lá estava ele, um Yorkshire mais bem penteado e arrumado que minha esposa em dia de formatura.

O diálogo então continuou. Não o diálogo entre L. Jackson, Travolta e o garoto inadimplente prestes a ser assassinado, mas o diálogo envolvendo a mancha rosa ao meu lado. Coloquei meus óculos de grau. Meus olhos focaram, e a mancha se desfez:

– Olha mãe, cabe direitinho na minha mochila para eu levar pro colégio! Aiii compra mãe!

A garota aparentava ter uns 12 anos, bem-vestida, bem maquilada, cabelos bonitos e sedosos, rosa dos pés a cabeça. A mãe apresentava seu tipo logo quando entrava em qualquer recinto. Madura o suficiente para não ser tratada como uma menina, bonita o suficiente para não ser tratada como uma velha, bem vestida o suficiente para mostrar que tinha dinheiro, e “jeca” o suficiente para não esconder que na verdade todo aquele dinheiro vinha do marido.

Bem, mudança de planos.

Eu estava aqui prestes a discursar sobre as diferenças sociais entre a garota mimada da FNAC, que tem tudo o que quer e a grande maioria de crianças e adolescentes que não tem nenhuma oportunidade de acesso a informação, saúde e diversão. Iria criticar como a sociedade de hoje está moldando a juventude, uma juventude fútil, virtual, digitalizada e sem princípios. Foi quando o telefone da minha mesa tocou. Era de um orfanato que, não sei como, conseguiu um acordo com a empresa para qual eu trabalho para ligar nos ramais dos funcionários e expor o caso de um menino que perdeu sua mãe com HIV na semana passada. O garoto tem um problema grave de saúde que o impede de consumir quaisquer outros alimentos exceto um tipo de leite importado, cuja embalagem de 500g custa R$80,00 reais cada.

E foi então que a minha ficha caiu, pela segunda vez. Eu só me comprometi a contribuir com míseros R$10 porque nesse exato momento eu estava escrevendo esse texto. Não seria coerente eu voltar para o meu texto sem contribuir com o pobre garoto. Me senti mal, mas pior, me senti NORMAL. A verdade não é bonita. Não tem máscara.

A verdade é que no meu almoço de hoje eu vou gastar R$21, e para o leite do garoto eu somente contribuí com metade. Metade do meu Ravioli ao quatro queijos com picanha e suco de abacaxi com hortelã. A verdade é que nós somos podres, egoístas e capitalistas. Nós vivemos por nós mesmos, por nossos sonhos. Chego até a pensar que talvez a garota da FNAC não tenha sido real, mas sim somente uma imagem distorcida de mim mesmo. Eu havia visto ela antes ou depois de tirar os óculos 3D? Talvez minha vida seja uma ‘pulp fiction’.

A verdade é que assim que eu terminar este texto, vou até o banheiro lavar minhas mãos, irei caminhando sobre meu Timberland de R$250,00 reais. Ajeitarei meu NIKE de pulso digital de U$90 Dólares, comprado em uma Duty Free de um aeroporto internacional durante uma viagem com custo aproximado de R$5mil reais, chamarei minha esposa no NEXTEL, cuja conta gira em torno de R$160,00 para dizer que eu a amo, porque afinal de contas quem mais importa no mundo senão ela e eu mesmo? E no caminho para o restaurante onde gastarei meus R$21 reais para saciar meu desejo carnal, vou pensar: poxa, olha que bacana, eu pelo menos contribuí com R$10 reais! muita gente não faria isso. Então, de consciência limpa e alvejada, quem sabe não rola um Magnum Gold de sobremesa?

Eu, pelo menos, contribui. Pelo menos.

A verdade meus caros, é nua, crua, e com gosto de maionese estragada.


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Uma resposta para “A verdade Nua e Crua

  1. Caracas…q artigo bom pra c#@%…essas foram as minhas palavras após ler este artigo que expressa nua e cruelmente quem somos….e agora o que será que eu (sua esposa), irei fazer para contribuir? Não sei…vontade de fazer é uma coisa e agir é outra.
    Hoje dia 26/03 é o dia mundial onde todos somos solicitados a apagarem as luzes por 60min….e assim economizaremos milhões de recursos naturai, é uma ótima contribução, uma vez por ano está ótimo….os outros dias….destruiremos nossos recursos e viveremos felizes para sempre!

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