O dia em que me tornei um Ser Humano

Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Seu Barata deu por si, no chão, transformado num gigantesco ser humano. Estava deitado de bruços, sobre o tórax, tão frágil que parecia revestido de gelatina, e, ao virar um pouco a cabeça, divisou o magrelo corpo comprido, que ao mesmo tempo em que parecia uma coisa mole envolta em pele, era divido em duas pernas, dois pés, dois braços e duas mãos, basicamente “mal pensados” e desordenados. Comparados com as inúmeras pernas que possuia ao ir dormir na noite anterior, os míseros dois palitos que aparentemente serviriam para sua sustentação, pareciam inúteis.

Que foi que me aconteceu? – pensou. Não era um sonho. A casa abandonada, uma casa qualquer, ali estava como de costume. As migalhas largadas pelos cantos e embaixo do sofá, que ele estava comendo na noite anterior continuavam ali, porém agora já não lhe agradavam aos olhos. Que por sinal, eram somente dois pequenos orificios pelos quais enxergava. Ainda deitado, percebeu que algo estava errado com seu olfato. Ao levar umas das moles mãos, cheias de dedos cerrados à estranha cabeça, percebeu a ausência de suas antenas. Isto encheu seu humano e vermelho coração de pavor.

Ele desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado – ouviam-se os pingos de chuva a baterem na calha e isso o fez sentir-se bastante melancólico. Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delírio? – cogitou. Mas era impossível, estava habituado a dormir no chão, sem maiores delongas e, na presente situação, não podia aguentar mais aquele solo duro. Por mais que se esforçasse por manter-se rente ao chão, de bruços, tornava sempre a se incomodar, com o rosto colado no mesmo, sem conseguir respirar. Tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos, para evitar ver as pernas magrelas inúteis não servindo pra nada, e só desistiu quando começou a sentir no flanco uma ligeira dor entorpecida que nunca antes experimentara. Desistiu.

Horas se passaram e Seu Barata conseguiu se colocar em pé. Antes, caiu, levantou, caiu levantou. Quebrou objetos em sua volta, caiu e levantou até que começou a pegar o jeito para se equilibrar sobre os dois apoios estranhos que serviam de único contato com o chão.

Após algum tempo ali dentro, o humanóide já era capaz de se manter de pé sem o auxílio de apoios e também de controlar suas funções motoras básicas, como alimentar-se com o uso das mãos e abrir e fechar portas. Descobriu também o uso da cama, um refúgio para seu novo, frágil e delicado corpo. De todo, ao abrir a porta da rua pela primeira vez, Seu Barata pensou que nem tudo estava perdido, afinal de contas poderia ver o mundo de uma maneira diferente desta vez. Enxergar de cima, não ser pisado ou perseguido, não vagar pelos cantos e lixos atrás de comida, não ver seus irmãos e parentes sendo mortos por inseticidas fortes e cruéis. Com uma sensação estranha na cara que lhe foi dada, lá foi ele para a rua.

Logo na saída haviam outros seres, exatamente como ele, que desprovidos de roupas adequadas e tão sujos quanto uma barata, mendigavam por esmolas e restos de comida. Os outros seres, que passavam incessantemente por ali, pareciam não enxergar tal situação. Ele também pôde notar, que dentre os humanos ali jogados, haviam filhotes. Rapidamente ele olhou para seu corpo frágil e teve a certeza de que o corpo deles era muito mais frágil do que o dele. Se sentiu agradecido por ter recebido um corpo de adulto e não de filhote, porém, foi também nauseado por um sentimento proveniente do coração humano, que o fez não suportar aquela situação e desengonçadamente sair dali.

Os restos de comida que existiam na casa abandonada haviam acabado. Seu Barata agora tinha fome e não sabia onde encontrar sustento. Viu então pessoas aparentemente se alimentando, sentados todos numa mesa, à beira da calçada. O instinto da fome o fez parar em frente da mesa, se aproximar, explicita e corporalmente demonstrar sua necessidade de alimentar-se. Os outros humanos ali o ignoraram e o tiveram retirado daquele local.

Horas depois, ao virar uma esquina sem destino específico, ele foi surpreendido por um grupo de humanos, aparentemente mais jovens. Eles não eram adultos como ele, mas também não eram filhotes como os que tinha visto mais cedo, estavam no meio termo. Eles emitiram alguns sons com a boca e sem o menor rodeio começaram a, violentamente, golpear o humanóide com pedaços de pau, socos e pontapés. Eles riam, Seu Barata não conseguia entender o que era uma risada e nem porque estava sentindo aquelas dores lacerantes. Tudo o que ele desejava era voltar a ter o corpo que tinha antes, tão duro que parecia revestido de metal. Largaram-no ali, jogado, como um inseto pisoteado e rejeitado, intoxicado por um inseticida que nunca havia ouvido falar.

Seu Barata acordou ali no beco, envolto num líquido vermelho e com dores por todo o corpo. Levantou-se e rastejou até a casa abandonada onde todo o pesadelo havia começado. Faminto, machucado, triste, com saudade da vida que tinha antes e com nojo da vida que tinha agora, ele estava confuso. Apesar de estar aparentemente num corpo humano, continou a sentir-se um inseto, sujo, perseguido, pisoteado, faminto e invisível para as outras pessoas.

Com o rosto coberto de um líquido transparente que, descontroladamente, brotava dos seus olhos, ele desejava como nunca voltar a ser o que era antes. Voltar a ter o tamanho que tinha antes. O corpo firme, a agilidade, e sobretudo, a dignidade que tinha antes. Com a barriga roncando, deitou-se na cama para tentar esquecer-se da sua vida e vagarosamente pegou no sono.

Pela manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Seu Barata deu por si, no chão, transformado num pequeno inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados ao longo do corpo de quatro centímetros.

Foi só um pesadelo. – respirou aliviado.

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11 Respostas para “O dia em que me tornei um Ser Humano

  1. é meu velho, tirando a barata, dura e pura realidade!

  2. kkkkkkkkkkkkkkk… A barata sonhar que virou humano foi o melhor! E acordar desesperada! E ver que era um pesadelo…ufa!! ..haaaa… Não tem limites.!. rsrsrs ..Nossa 1108 palavras nesse sonho mi irritou!..rsrs

  3. Franz Kafka reverso ?

  4. Fiquei com medo dessa foto da barata e só por isso não iria ler o texto..rs.
    Masssss superei o meu maior e li o texto.
    Disse tudo o que somos como a RAÇA ser humano com nós mesmos, com o nosso meio, meio ambiente em que vivemos e destruimos a cada dia mais.
    Amei o texto, marido 🙂

  5. Parabens Gabriel, obrigado por nos trazer esse belo texto , que nos fais pensar , em como a sociedade trata nosso mendingos (baratas)…

  6. Muito bom o testo, serve para nos fazer pensar em nossas atitudes, parabéns Gabriel!

  7. – Me deram tudo, e olha só o que é tudo! é uma barata que é viva e que está à morte. E então olhei o trinco da porta. Depois olhei a madeira do guarda-roupa. Olhei o vidro da janela. Olha só o que é tudo: é um pedaço de coisa, é um pedaço de ferro, de saibro, de vidro. Eu me disse: olha pelo que lutei, para ter exatamente o que eu já tinha antes, rastejei até as portas se abrirem para mim, as portas do tesouro que eu procurava: e olha o que era o tesouro!

  8. Bruno Freire Pedrosa

    É, my friend! At first: Here I am again… Finalmente Fériaaaaaaaaas! Hahai!

    Enfim… vamos ao que interessa… Hoje podemos ver em que situação a tão (ir)racional raça humana está se aproximando. :S Com certeza, eu acredito que nenhum outro ser, seja ele mamífero, inseto, etc., queria se tornar um de nós. Embora sejam classificados como irracionais pelos seres auto-ditados racionais, os bichinhos, digamos assim, apresentam um maior senso de sabedoria quando relacionamos à questão de viver de uma maneira politicamente correta! Vivem cronológica e perfeitamente de acordo com a natureza, com o tamanho de suas pegadas, pernas… Hmmm… Dêxa eu vê… Ah! Limitações. E o que é mais engraçado é que eles sabem como lidar com cada aspecto de suas vidinhas, sendo irracionais, simultaneamente… Paradoxal, né?! Acho que o termo correto a ser utilizado pela classe humana que insiste em dizer que está evoluindo c-o-n-s-t-a-n-t-e-m-e-n-t-e, deveria ser: Involução! É, involução! Há quem irá me chamar de clichê e dizer que eu tenho apenas um argumento: o de que a “evolução” do mundo continua cegando a maioria das pessoas… que elas estão perdendo os detalhes e, consequentemente, a essência da vida… Tá, morrerei com o título de “O mais clichê de todos os tempos”. Para mim, a criação de novos seres com características de egoístas, hostis, violentos… e cegos… não é evolução! Seria?! É. Definitivamente, acho que não! Engraçado é que quantos mais seres humanos nascem, mais seres humanizados entram em extinção… junto com muitos dos bichinhos tidos como “irracionais”!

    Mais uma vez seu texto me fez pensar na atual situação dos habitantes deste planeta e como ele tem (des)compassadamente “evoluindo”!

    Parabéns, SuperWriter!

    Nice post, as they all are!

    Bruno Freire Pedrosa.

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