Descanse em paz, cachorrinho branco.

Eu já matei um cachorro. Não por querer, não intencionalmente, não por prazer. Matei por acidente. Matei por pegadinha do destino. Parece que a roda do meu carro e aquele cachorrinho branco se atraíam como chão e iPhone. Isso aconteceu há muito tempo atrás, e naquele exato momento eu não sabia o que fazer. Fiz o que todos fazem, me juntei a multidão, fugi, entre o humano e o cachorro, curiosamente o humano foi quem colocou o rabo entre as pernas. Na “esperança” do pobre coitado ter morrido na hora e sem dor e sofrimento, fui embora. Triste, deprimido, arrasado, mas fui embora e voltei para minha vida. Voltei para minha vida medíocre. Não, não era uma vida tão medíocre, mas achei que causaria impacto o emprego dessa palavra. Esse é um daqueles episódios da nossa vida, que mesmo que passem 100 anos, ainda sentiremos ânsia ao lembrarmos.

Algum tempo depois, descobri que 90% dos animais atropelados em ruas ou estradas, não morrem pelo atropelamento, mas sim por INANIÇÃO, ou seja, morrem de fome por ficarem impossibilitados de se locomover devido aos ferimentos gerados no acidente.

Sim, foi exatamente esse silêncio que eu fiz ao descobrir isto. Essa informação caiu sobre mim como um piano despencando do décimo andar. Se eu já tinha esquecido meu trauma, ele voltou e com força total. Com ele, vieram alguns pensamentos sobre como é possível vermos um animal agonizando na rua e não fazermos nada? como foi possível que eu agisse assim? Pelo menos até um tempo atrás este era meu questionamento.

nypostMas recentemente meu questionamento mudou. A foto ao lado, publicada pelo New York Post, NÃO é nova. Ela foi publicada na mídia algumas semanas atrás, e diz: “Empurrado nos trilhos do metrô, este homem está prestes a morrer”. abaixo em letras maiúsculas:  CONDENADO”.

O homem na foto foi empurrado e caiu nos trilhos do metrô, os cliques foram dados minutos antes de, fatalmente, o vagão de trem atropelar a vítima. A pergunta que o mundo fez foi: “Por que ninguém o ajudou?”. Se houve tempo suficiente para fotografar os últimos momentos de um homem antes de ser atingido por um trem que se aproximava – o que vale ouro para a capa de um tablóide – não poderia a fotógrafa ter lhe estendido a mão? Além do questionamento sobre a atitude da fotógrafa, a própria publicação da foto na capa do jornal está provocando debate entre os internautas americanos. “A parte mais dolorosa foi vê-lo chegar tão perto da borda [da plataforma]. Ele estava chegando tão perto”.

Se não existe nenhum ZOOM nesta imagem, subentendendo que aquela era a distância real entre a máquina e a vítima e esquecendo a velocidade do trem… jogando-se a camera longe, não parece completamente possível correr, se jogar no chão e puxar a vítima? Mesmo ela não subindo completamente, mas tendo todo seu tronco já fora dos trilhos, quem sabe a própria frente do trem não jogava as pernas dele para cima? A desculpa da fotógrafa foi que ela estava tentando ALERTAR o maquinista sobre alguém nos trilhos. Eu digo que ela estava CEGANDO o maquinista com os flashes. No entanto, não irei condenar a coitada da fotógrafa, que já vai carregar esta cena por um tempo, especialmente porque ela tem um registro bastante concreto dela. Agora, olhar para a foto e ver o homem virado para o trem, olhando-o fixamente, faz com que seja quase possível VER sua expressão de desespero e inevitável imaginar o que ele estava pensando na hora.

De repente, o absurdo da indiferença dos seres humanos com relação a um animal agonizando à beira da estrada, será o menor dos problemas da humanidade. A foto inicia esta discussão, independente da intenção da fotógrafa ser legítima ou não.

Este será nosso futuro? Ou pior, este já não é nosso presente?

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7 Respostas para “Descanse em paz, cachorrinho branco.

  1. O melhor comentário que posso deixar é: Sem comentários…

  2. Acredito que esta fotógrafa deve ter ganho um bom dinheiro pela foto o que nos mostra a direção do mundo hoje…..dinheiro hoje infelizmente para algumas pessoas esta acima de qualquer coisa até mesmo da vida….lamentavel e muito triste

    • Bruno Freire Pedrosa

      Em resumo, achei um comentário semelhante ao que se processou em minha mente, simultaneamente, após sua última pergunta, Gabriel!

      Lamentável…

      … até machuca…

      Se nos silenciarmos, veremos, paradoxalmente, que há um barulho que inquieta esse momento de “respeito”… o mundo agoniza…

      … lentamente.

      Sim, vamos ficar 1 minuto em silêncio. Em memória ao planeta, que um dia foi um lugar que valia a pena viver…

      Que ainda grita por “socorro”, que cruelmente agoniza, novamente… E, hoje, mais vale apertar o botão que registra a sua morte, do que oferecer-lhe a mão para tentar recuperá-lo… Ele, agoniza…

      E agoniza…

      Em silêncio, termino meu comentário…

      Abraços, maestro Gabriel.

    • Daisy, que lindo! Adorei! Desde a refereancia ao Michael Jackson, passando pela falsa vida etnera e falsa eternidade da Terra , ate9 Fingimos ne3o ouvir uivos das florestas cremadas. Apesar de respirarmos…………………………………………………………[suas cinzas . Como disse a Raquel, essa mistura de protesto, melancolia e amor, ficou na medida certa. beijos, obrigada pela constribuie7e3o ao blog e parabe9ns!

    • Excelente! Extremamente pertinente e atual! Os temops de hoje, ou pelo menos os que agora se3o veiculados pela meddia, mostram a nossa diste2ncia de todos e do que podemos fazer. BeijoIzabel

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